Retorno de fósseis da França ao Brasil deve impulsionar ciência e economia, avalia pesquisadora

Smirnova britovitzk
By Smirnova britovitzk 8 Min Read

“Algo a ser comemorado.” Assim a pesquisadora e professora cearense Flaviana Jorge descreveu o retorno de fósseis cearenses contrabandeados até a França, anunciado nesta semana. As peças integrarão o acervo do Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens, mantido pela Universidade Regional do Cariri (Urca) em Santana do Cariri, e têm rico valor para a ciência, a educação e a economia cearense, segundo a estudiosa.
O lote das peças foi apreendido em agosto de 2013, e o pedido para devolução foi realizado em 2019. Em cerimônia na última terça-feira (24), a entrega foi oficializada. Ao todo, 998 peças, consideradas emblemáticas do período por especialistas franceses, voltarão ao Ceará.

Conforme o procurador da República Rafael Rayol, do Ministério Público Federal no Ceará (MPF-CE), a carga ainda passará por processos aduaneiros antes de ser liberada. A previsão é de que os fósseis cheguem ao estado entre 20 e 30 dias após o anúncio de devolução da França, feito em 24 de maio.

No entanto, segundo o diretor do museu, Allysson Pontes, ainda não há data fechada para o recebimento dos itens. Os fósseis passarão por processo de seguro para serem transportados de avião de Paris para Fortaleza, e de caminhão da capital até o interior do estado.
Doutora em Geociências pela UFPE, Flaviana descreveu ao g1 o retorno das peças históricas como “muito importante”, dado que os fósseis podem ajudar no crescimento da economia local e na descoberta de aspectos relativos ao futuro do planeta.

Questões climáticas

A partir dos fósseis, os pesquisadores conseguem entender a biota local — plantas, animais, toda a vida daquele meio, conforme Flaviana Jorge — e a relação dela com as mudanças climáticas. A informação sobre o contexto antigo pode, inclusive, relacionar-se com questões ambientais do presente e do futuro.
Segundo a cientista, que estuda a diversificação de plantas com flores e os incêndios de épocas remotas, uma hipótese que precisa ser muito testada é de que o fogo ajudou na dispersão dos vegetais floridos no Cretáceo, entre 65 a 145 milhões de anos atrás.
“Algumas dessas plantas, que eram rasteiras e pequenininhas, começaram a avançar e se distribuir”, teoriza, pontuando que o estudo dos fósseis pode trazer novas informações sobre o que ocorreu na época.
Assim, os fósseis serviriam para descobrir, documentar e avaliar causas e fatores de influência em questões climáticas. “A gente precisa entender o que acontecia no passado. A partir desse momento, a gente consegue ter ideia do que pode vir a acontecer no local, numa região, numa parte do globo, o que pode gerar a ocorrência desse incêndio”, explica.

Melhor lugar para estudo dos fósseis

Flaviana Jorge disse que o material recuperado faria parte de um museu particular na França antes de ser alvo do MPF. Embora fosse integrar um acervo de um museu, a professora aponta que coleções do material devem ser acessíveis a todas as pessoas, inclusive para fins de estudos.
“Museu particular não é o melhor lugar para guardar patrimônio paleontológico. Muito provavelmente, esses fosseis que vão voltar da França ficariam engavetados e dificilmente alguém poderia estudá-los.”
A pesquisadora lembra o caso da espécie Tetrapodophis amplectus, inicialmente descrita como “cobra de quatro patas”, publicada na revista Science em 2015. O fóssil, originário da Formação Crato, na Bacia do Araripe, foi recolhido após a descoberta vir a público e tem paradeiro desconhecido atualmente.
“O dono do museu particular pegou de volta, escondeu e ninguém tem acesso. Não tem um cientista neste mundo que tenha acesso a esse material”, diz a cientista.
Além de pesquisadores terem dificuldade de acesso às próprias peças, outro problema poderia surgir: o de validação científica. A professora da UFPE explicou que o objeto de pesquisa precisa estar público, pois outros cientistas podem ampliar a informação sobre o assunto.
“Nós só podemos estudar e publicar material que esteja numa coleção pública, para outras pessoas reverem informações, incluírem outras — é do fazer científico. A ciência não é estática”, afirmou. “Você não publica e acabou aí, terminou aquele trabalho; vêm outras análises, outras tecnologias, que podem ser aplicadas nesse material.”

Dessa forma, segundo a cientista, o retorno dos fósseis para um museu com coleção pública pode reforçar o desenvolvimento da atividade científica, inclusive de modo local. A existência do museu e do acervo já existente promoveu o crescimento dos estudos paleontológicos na área, os quais, para a pesquisadora, têm “qualidade que não deve nada à ciência”.

“Há 20 anos, a gente não tinha cientistas na região do Cariri. [Os fósseis] eram estudados por gente que vinha de fora do estado ou do país”, lembra, afirmando que a situação é distinta atualmente.

Circulação da economia e crescimento local

Os estudos que podem ser feitos a partir das peças não só possibilitam a ampliação do conhecimento acerca do tema, mas, também, o crescimento local.

Para a pesquisadora, a presença dos novos fósseis o museu da Urca pode impactar a economia de modo direto, a partir da ampliação do público interessado nas peças. Assim, o equipamento poderia crescer ainda mais pela maior procura.
Allysson Pontes, porém, assegurou que o museu, gratuito ao público, não tem previsão de cobrança de taxa de visitação com a vinda dos itens. Segundo o diretor, a estratégia de arrecadação se baseia na venda de catálogos, peças e outros itens, além de doações voluntárias por parte dos visitantes.
A professora da UFPE afirma que a presença dos fósseis no museu também resultaria na retroalimentação da economia local, dado que mais pesquisadores e turistas se dirigiriam à região, favorecendo o consumo de bens e serviços no estado.
“Um cientista que mora na Alemanha, se tiver interesse de ver esse material, vem de lá, precisará visitar a região do Cariri, se hospedará, se alimentará”, explica a pesquisadora.

Custos

A pesquisadora afirma que o trabalho do MPF foi essencial para o retorno das peças, que não voltaram apenas por intenção da França. Ela, porém, ressalta a existência de altos custos ao longo desse processo — por serem materiais históricos, os fósseis precisam devem contar com condições adequadas de transporte e conservação.
Ainda segundo Rafael Rayol, os custos de transporte e seguro envolvidos no retorno do lote são de cerca de R$ 90 mil. O valor é arcado pelo governo do Ceará, por meio da Urca, que receberá o material.
No entanto, o alto custo não é apenas financeiro, afirmou a cientista. Para ela, o tempo desperdiçado até o retorno dos fósseis poderia ter sido revertido em conhecimento para a sociedade, que poderia entender mais a importância das peças.
“Enquanto a gente está lutando para que esses fósseis retornem, a gente poderia estar na região coletando, estudando fósseis, escrevendo e divulgando para a comunidade local a importância desses achados e tentando reverter a situação dentro do próprio país”, diz.

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