Prévia da inflação recua para 0,41% no mês, porém tomate, batata e feijão seguem em alta intensa; no acumulado de 12 meses, índice chega a 4,80%
O paulistano que foi ao supermercado nos últimos dias provavelmente percebeu algo que os números do IBGE confirmaram nesta quinta-feira (25): os preços recuaram em ritmo, mas não desapareceram do orçamento familiar. A prévia da inflação oficial de junho ficou em 0,41%, representando uma desaceleração pelo segundo mês seguido. Em abril, o IPCA-15 havia marcado 0,89% e, em maio, 0,62%. O índice, conhecido como IPCA-15, funciona como um termômetro antecipado do que será o IPCA cheio, previsto para o dia 10 de julho. Para São Paulo, região que integra o levantamento, a leitura é agridoce: há melhora no agregado, mas os itens de consumo cotidiano seguem pressionados de maneira persistente. A inflação mais branda em junho não significa, portanto, alívio imediato no caixa das famílias. Significa apenas que o ritmo de alta está diminuindo, o que é diferente de queda de preços. Agência Brasil
Apesar da desaceleração em relação aos 0,62% registrados em maio, o índice continua pressionado principalmente pelos aumentos nos grupos Alimentação e bebidas e Habitação, que juntos responderam por aproximadamente 66% da inflação do mês. Para os moradores da capital paulista, que já convivem com um custo de vida estruturalmente alto, essa concentração nos dois grupos de maior peso no dia a dia é especialmente sensível. Comer e pagar aluguel ou conta de luz são despesas inescapáveis, e é justamente nesses itens que a inflação tem dado as suas cartas mais pesadas nos últimos meses. O quadro se repete desde o início do ano e indica uma pressão de origem mista: climática, no caso dos alimentos, e regulatória, no caso da energia elétrica. Brasil 247
O que está subindo mais e por quê
Os preços que mais subiram no grupo foram o da batata-inglesa (29,42%), do tomate (17,27%), do feijão-carioca (14,29%) e da cebola (9,54%). O IBGE destacou que, no semestre, tomate (103,84%), cenoura (103,10%) e batata-inglesa (100,20%) mais que dobraram de preço. Esses três produtos, que compõem a base da alimentação popular no Brasil, acumularam alta acima de 100% apenas no primeiro semestre de 2026. Para uma família de baixa renda em São Paulo, que já destina parcela maior da renda ao consumo de alimentos, esse movimento representa uma pressão brutal sobre o orçamento. O impacto é ainda mais severo para quem mora em bairros periféricos, onde o acesso a feiras e comércios populares é mais limitado e os preços do varejo tendem a ser comparativamente mais altos do que nas regiões centrais. Agência Brasil
A razão por trás desses aumentos combina dois fatores: as condições climáticas adversas que reduziram a oferta de hortifrutigranjeiros em regiões produtoras, e a dificuldade logística de distribuição, que eleva custos na cadeia até chegar às prateleiras paulistanas. No caso do tomate, por exemplo, safras menores em estado produtor como Minas Gerais reduziram a oferta justamente quando a demanda se manteve estável, criando desequilíbrio de oferta e demanda que se refletiu nos preços. A batata e a cenoura passaram por dinâmica parecida. O feijão-carioca, por sua vez, sofreu com safra menor no Sul do país e custos de transporte elevados. Todas essas pressões chegam ao mercado paulistano de forma amplificada, dada a distância entre os centros produtores e a metrópole.
A conta de luz e o plano de saúde também pesaram
No grupo habitação, o custo que mais cresceu foi o da energia elétrica residencial (2,04%). A explicação, segundo o IBGE, está na bandeira tarifária amarela, com a cobrança adicional de R$ 1,885 para cada 100 quilowatt-hora consumidos. A bandeira amarela entrou em vigor por conta do nível dos reservatórios das hidrelétricas, que seguem abaixo do ideal para a época do ano. Em São Paulo, onde o consumo residencial de energia é elevado por conta do tamanho das moradias e do uso intenso de equipamentos domésticos, esse adicional impacta diretamente a conta no final do mês. A estimativa é que uma família com consumo médio de 300 kWh mensais pague cerca de R$ 5,66 a mais por mês só pela bandeira tarifária. Agência Brasil
No grupo Saúde e cuidados pessoais, a alta foi de 0,47%, impulsionada principalmente pelos artigos de higiene pessoal e pelos planos de saúde. Neste último caso, o reajuste reflete a incorporação do aumento de 5,11% autorizado pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), em vigor desde maio de 2026. Para os beneficiários de planos de saúde individuais em São Paulo, que já pagam as mensalidades mais caras do país por conta da concentração de prestadores e hospitais de alto custo na capital, esse reajuste adicional não passou despercebido. Famílias que dependem do plano como principal acesso à saúde ficaram diante de uma decisão difícil: absorver o aumento, reduzir a cobertura ou migrar para planos mais baratos e com menor rede de atendimento. Brasil 247
O que o consumidor paulistano pode esperar daqui para frente
O consenso do mercado projeta alta de 0,46% no mês, ainda pressionada pelos preços dos alimentos, enquanto os combustíveis devem mostrar certa acomodação. Em 12 meses, o índice deve avançar de 4,64% para 4,85%, aproximando-se da marca de 5%. O ritmo mais lento da inflação não garante que os preços vão cair, mas indica que o pico de pressão deste ciclo pode estar sendo deixado para trás. A questão é que a inflação acumulada do primeiro semestre já deixou uma marca relevante no poder de compra da população paulistana, e a recuperação real desse poder depende de reajustes salariais que nem sempre acompanham o índice com a mesma velocidade. Para trabalhadores com salário fixo ou renda variável instável, que são maioria na capital, o semestre foi de aperto real. Febraban
Especialistas apontam que o comportamento dos alimentos nas próximas semanas será determinante para o índice de junho cheio. Se as safras de inverno chegarem ao mercado com volume adequado, a tendência é de alívio nos hortifrutigranjeiros. A energia elétrica, por outro lado, depende da evolução dos reservatórios. Caso o nível hídrico não melhore até setembro, a bandeira tarifária pode avançar para o patamar vermelho, o que pressionaria ainda mais a conta de luz. Para o paulistano, o recado prático é acompanhar de perto as revisões salariais, comparar preços entre feiras e supermercados e evitar comprometer renda com despesas variáveis desnecessárias enquanto o ambiente inflacionário ainda não apresenta estabilidade clara.
Fontes: Agência Brasil | Brasil 247 | Febraban
Autor: Diego Rodríguez Velázquez