Poucas cidades brasileiras nasceram de um projeto privado de colonização, e Tucumã, no sudeste do Pará, é uma delas. Na interpretação de Alfredo Moreira Filho, empresário que teve o município entre as paradas de sua trajetória até Brasília, a história do lugar mostra como até o planejamento mais cuidadoso precisa se adaptar quando a realidade muda de rumo.
Criada há pouco mais de quatro décadas, Tucumã foi pensada para receber agricultores em um espaço praticamente desocupado da Amazônia oriental. O que aconteceu depois, porém, fugiu completamente do roteiro previsto. Entenda, nos próximos parágrafos, como o plano foi desenhado, o que o desviou e o que essa experiência ensina sobre gestão e comunidade.
O plano: colonizar a Gleba Carapanã
Tucumã surgiu no contexto do Projeto Carajás, quando o governo federal buscava ocupar grandes áreas consideradas vazias no sudeste paraense, entre elas a Gleba Carapanã. Diferentemente de outras frentes de ocupação conduzidas pelo poder público, a colonização ali foi entregue a uma empresa privada, a Construtora Andrade Gutierrez, responsável por planejar e implantar o núcleo urbano e rural.
O modelo era seletivo. Os primeiros colonos vieram da região Sul do país, escolhidos por terem tradição agrícola e recursos próprios para se manter pelo menos durante o primeiro ano. A ideia, como observa Alfredo Moreira Filho, seguia uma lógica empresarial clara: reduzir riscos selecionando quem tinha mais chances de prosperar na nova terra.
A virada: o ouro e a chegada de milhares de famílias
O que nenhum planejamento previu foi a descoberta de ouro na região. A notícia atraiu pessoas de vários estados, muitas delas sem terra e sem qualquer vínculo com o projeto oficial. A situação ficou tensa, e a empresa responsável perdeu o controle sobre a ocupação da área.

O resultado foi uma inversão completa do plano original. Segundo o histórico do IBGE, mais de três mil famílias ocuparam o projeto de colonização, e a construtora acabou suspendendo seus investimentos. Na vizinhança, garimpeiros e trabalhadores que não tinham acesso ao projeto formaram outro povoado, que mais tarde daria origem ao município de Ourilândia do Norte. Para Alfredo Moreira, o episódio ilustra como fatores externos podem desmontar, em pouco tempo, um projeto pensado para durar décadas.
Quando a comunidade assumiu a cidade
Com a saída da empresa, Tucumã ficou diante de um vazio administrativo. A resposta veio da própria população, que se organizou e criou o Conselho de Desenvolvimento Comunitário de Tucumã. Foi esse conselho que passou a administrar o núcleo urbano, cuidando de questões básicas de convivência e serviços.
A experiência de autogestão durou até a emancipação, quando Tucumã se desmembrou de São Félix do Xingu e foi instalada oficialmente como município. Esse período de transição, na leitura de Alfredo Moreira Filho, revela uma capacidade de organização que muitas vezes passa despercebida nas histórias de fronteira, em que a imagem predominante é a do conflito e da desordem.
O que a experiência ensina sobre planejar e se adaptar?
A trajetória de Tucumã oferece lições que vão além da história regional. A primeira é que um plano, por mais bem estruturado, depende de condições que nem sempre se mantêm. A segunda é que a capacidade de reorganização diante do imprevisto pode ser tão importante quanto o projeto inicial.
Essas lições valem para cidades, empresas e famílias. Gestores enfrentam diariamente mudanças de mercado, de regras e de comportamento que tornam obsoletos planos traçados poucos meses antes. Alfredo Moreira entende que quem passou por regiões de fronteira aprende cedo essa realidade: planejar é indispensável, mas saber ajustar o caminho é o que garante que o projeto sobreviva.