Os primeiros 90 dias podem definir a virada empresarial?

Yuki Harumori
Por Yuki Harumori 5 Min de leitura
Pedro Henrique Torres Bianchi

Uma empresa que enfrenta dificuldades financeiras nem sempre dispõe de tempo suficiente para corrigir todos os seus problemas. Pedro Henrique Torres Bianchi, advogado e administrador de empresas especializado em reestruturação empresarial, possui experiência na administração de negócios em situação de crise, contexto em que as decisões iniciais podem influenciar diretamente as possibilidades de recuperação. Nos primeiros 90 dias de um processo de turnaround empresarial, expressão utilizada para descrever a recuperação de negócios em dificuldade, identificar prioridades, preservar recursos e reorganizar operações pode ser determinante para evitar o agravamento dos problemas.

Por que os primeiros dias exigem decisões diferentes?

O início de uma reestruturação costuma exigir uma avaliação das condições financeiras e operacionais da empresa. Antes de estabelecer metas de crescimento ou anunciar mudanças estruturais, é necessário compreender quais compromissos precisam ser cumpridos imediatamente, quais atividades geram recursos e quais despesas comprometem a continuidade das operações. Essa análise permite distinguir dificuldades temporárias de problemas que exigem transformações mais profundas.

Uma das primeiras providências envolve a elaboração de projeções de fluxo de caixa para as semanas seguintes. Diferentemente dos demonstrativos de resultados, que apresentam receitas e despesas conforme critérios contábeis, o fluxo de caixa permite visualizar quando o dinheiro efetivamente entra e sai da organização. Essa diferença é importante porque empresas lucrativas também podem enfrentar dificuldades para honrar pagamentos.

Na perspectiva de Pedro Bianchi, cuja atuação contempla a administração de empresas em crise, a identificação das necessidades imediatas representa uma etapa relevante da reorganização. Afinal, decisões tomadas sem conhecimento da disponibilidade financeira podem comprometer recursos necessários à manutenção das atividades essenciais, reduzindo as alternativas de recuperação.

Pedro Henrique Torres Bianchi
Pedro Henrique Torres Bianchi

Como definir prioridades sem comprometer a operação?

Depois de compreender a situação financeira, a administração precisa estabelecer quais atividades devem receber atenção prioritária. Nem todas as despesas possuem o mesmo impacto sobre o funcionamento empresarial. Pagamentos relacionados a insumos indispensáveis, serviços essenciais e obrigações trabalhistas, por exemplo, exigem avaliações específicas, considerando seus efeitos operacionais e as responsabilidades legais envolvidas. Essa classificação permite direcionar os recursos disponíveis para compromissos cuja interrupção poderia comprometer diretamente a continuidade das operações.

Entretanto, Pedro Henrique Torres Bianchi destaca que reduzir custos indiscriminadamente pode provocar consequências contrárias às pretendidas. A interrupção de investimentos em manutenção, a perda de profissionais especializados ou a diminuição excessiva dos estoques podem prejudicar a capacidade de atender clientes. Por isso, a reorganização financeira precisa considerar não apenas quanto determinada medida economiza, mas também quais receitas poderão ser comprometidas. Uma economia imediata pode gerar despesas maiores posteriormente, especialmente quando prejudica a produtividade ou exige a reconstrução de estruturas operacionais.

Outro aspecto importante envolve a comunicação interna. Funcionários que desconhecem as prioridades estabelecidas podem continuar utilizando recursos em atividades que deixaram de ser estratégicas. A definição de responsabilidades, acompanhada de informações claras sobre mudanças operacionais, contribui para alinhar departamentos e evitar decisões contraditórias durante o período de recuperação. Além disso, reuniões periódicas entre gestores podem facilitar a identificação de dificuldades e permitir ajustes antes que pequenos problemas comprometam os resultados planejados.

Quando negociar dívidas se torna indispensável?

A negociação com credores pode representar uma etapa importante dos primeiros 90 dias, especialmente quando os vencimentos existentes são incompatíveis com a geração de caixa. Entretanto, buscar novos prazos sem apresentar informações financeiras consistentes tende a dificultar os acordos. Os credores precisam compreender as condições de pagamento e avaliar se as propostas oferecem perspectivas realistas de recebimento.

Para Pedro Henrique Torres Bianchi, que também atua na recuperação de crédito e na negociação extrajudicial de dívidas, essa relação permite observar a importância de conciliar interesses financeiros distintos. Enquanto a empresa busca preservar recursos para continuar funcionando, os credores precisam avaliar os riscos envolvidos na concessão de descontos, prazos adicionais ou outras condições de pagamento.

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