Por que alguns países estão substituindo a idade pelo risco individual na prevenção do câncer de mama?

Diego Velázquez
Por Diego Velázquez 7 Min de leitura
Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues

O médico radiologista e ex-secretário de saúde Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues elucida que, durante décadas, a prevenção do câncer de mama seguiu uma lógica relativamente simples: ao atingir determinada idade, todas as mulheres passavam a receber recomendações semelhantes para iniciar o rastreamento mamográfico. Esse modelo foi responsável por reduzir a mortalidade da doença em diversos países e continua sendo uma importante estratégia de saúde pública. No entanto, os avanços da genética, da epidemiologia e do diagnóstico por imagem revelaram que mulheres com a mesma idade podem apresentar riscos completamente diferentes de desenvolver câncer de mama ao longo da vida.

Esse conhecimento está provocando uma das maiores mudanças da medicina preventiva nas últimas décadas. Em vez de definir a estratégia de rastreamento apenas pela idade, pesquisadores e sociedades médicas internacionais vêm estudando modelos capazes de avaliar o risco individual de cada paciente. O objetivo não é abandonar a mamografia, mas utilizá-la de forma mais inteligente, oferecendo um acompanhamento proporcional ao perfil de risco de cada mulher.

A idade continua sendo importante, mas deixou de contar toda a história

O envelhecimento continua sendo um dos principais fatores associados ao desenvolvimento do câncer de mama. Entretanto, ele está longe de ser o único. Hoje, sabe-se que fatores biológicos, genéticos e comportamentais podem modificar significativamente o risco individual, fazendo com que duas mulheres da mesma idade tenham probabilidades muito diferentes de desenvolver a doença.

Histórico familiar, mutações nos genes BRCA1 e BRCA2, densidade mamária elevada, obesidade, consumo de álcool, exposição prolongada a hormônios, sedentarismo e até características reprodutivas influenciam essa equação. Quando esses fatores são analisados em conjunto, torna-se possível construir uma estimativa muito mais precisa do risco individual. Segundo o Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, compreender essas diferenças permite que a prevenção deixe de seguir um modelo único para todas as pacientes e passe a considerar as características que realmente influenciam a probabilidade de desenvolver a doença.

O que é a estratificação de risco e por que ela está ganhando espaço?

Uma das maiores tendências da medicina preventiva é a chamada estratificação de risco. Em vez de recomendar exatamente o mesmo protocolo para todas as mulheres, esse modelo procura identificar grupos com riscos baixo, intermediário e elevado, permitindo adaptar a frequência dos exames e, quando necessário, indicar métodos complementares.

Para realizar essa avaliação, médicos utilizam modelos matemáticos validados internacionalmente, como Tyrer-Cuzick, BOADICEA e CanRisk, que integram dezenas de informações clínicas e familiares para estimar a probabilidade de desenvolvimento do câncer de mama ao longo dos anos. Essa abordagem não busca prever exatamente quem terá a doença, mas identificar quais pacientes podem se beneficiar de um acompanhamento mais intensivo. Para o Dr. Vinicius Rodrigues, a estratificação de risco representa uma mudança de paradigma, pois permite que a prevenção seja construída com base em evidências individuais e não apenas em critérios populacionais.

Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues
Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues

A densidade mamária passou a influenciar decisões importantes

Entre todos os fatores considerados atualmente, poucos ganharam tanta relevância quanto a densidade mamária. Mulheres com maior quantidade de tecido fibroglandular apresentam não apenas maior dificuldade para a interpretação da mamografia, mas também um risco discretamente superior de desenvolver câncer de mama quando comparadas àquelas com mamas predominantemente adiposas.

Esse conhecimento levou diversos países a discutir protocolos específicos para essas pacientes. Em determinadas situações, exames complementares, como tomossíntese, ultrassonografia ou ressonância magnética, podem ser considerados após avaliação médica individualizada. Conforme explica o Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, a densidade mamária deixou de ser apenas uma característica descrita no laudo e passou a exercer papel importante no planejamento do rastreamento, reforçando a necessidade de decisões cada vez mais personalizadas.

Inteligência artificial e modelos preditivos estão mudando a prevenção

Outra transformação importante vem da utilização da inteligência artificial para estimar riscos futuros. Diferentemente dos algoritmos desenvolvidos para detectar lesões já existentes, esses sistemas analisam milhares de informações presentes nas imagens e as combinam com dados clínicos, genéticos e epidemiológicos para calcular a probabilidade de desenvolvimento do câncer nos anos seguintes.

Estudos internacionais, como o WISDOM Trial e o MyPeBS, investigam justamente se programas de rastreamento personalizados podem oferecer resultados iguais ou superiores aos modelos tradicionais, reduzindo exames desnecessários e concentrando recursos nas mulheres com maior risco. Embora essas estratégias ainda estejam em fase de consolidação, elas indicam uma importante mudança na forma de pensar a prevenção.

O futuro da prevenção será cada vez mais individualizado

Os avanços científicos demonstram que a medicina caminha para abandonar modelos excessivamente padronizados e adotar estratégias capazes de respeitar as características individuais de cada paciente. Isso não significa que a idade deixará de ser considerada, mas sim que ela passará a fazer parte de uma avaliação muito mais ampla, integrada a fatores genéticos, biológicos, clínicos e tecnológicos.

Para o Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, o futuro da prevenção será construído pela combinação entre medicina baseada em evidências, diagnóstico por imagem e medicina personalizada. O grande desafio não será realizar mais exames, mas identificar quem realmente se beneficia de estratégias diferenciadas de rastreamento, aumentando a eficiência da prevenção e ampliando as oportunidades de diagnóstico precoce.

Essa transformação já começou em diversos centros de pesquisa ao redor do mundo e deverá influenciar as próximas atualizações das diretrizes internacionais. À medida que novos estudos ampliam o conhecimento sobre os fatores de risco individuais, a tendência é que a prevenção do câncer de mama se torne cada vez mais precisa, personalizada e capaz de oferecer o cuidado certo para a paciente certa, no momento mais adequado.

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